Sou insensível mesmo, não duvides! E cá logo te esbarro na rua, vou fazer dedo sisudo e interrogativo com uma cara de:
- É! te conheço sim! Só não foi importante!
E não vou ligar que venhas toda sorridente e que te assomem quaisquer saltinhos e reboladinhos de alegrias em me ver, e muito menos me comoverei com o brilho de lembranças que porventura venham a transbordar dos olhos; desses olhos que nem me lembro mais. E vou perguntar de coisas que não quero saber, só pra fazer em areia este silêncio morno de indisposição.
E, "ah! droga!", mas que porra! Não quero gostar de ninguém! Me deixa?
Venho errando ritmicamente! Tal maneira cíclica, que quase posso adivinhar um erro que ande próximo, ou facilmente pressenti-lo, em fantasmagoria, segundos antes de cometê-lo. Como se tudo que viesse a fazer já antes houvesse. Como se o bruxuleio da minha vida estivesse em tudo, como se eu mesmo me apresentasse, num sempre semi-sonhar, tudo que haveria de pronto pra mim, e eu ergueria o dedo sisudo no ar com cara de:
- É! Te conheço sim! Só nunca te vi!
E então, daquela esquina, tu vens. E eu já bem sei que não me odeias (como o queria) e, para tanto, circulo meus olhos no ar de modo a encontrar saída e coerência, e projeto meu peito pra frente tal qual buscasse no ar um impulso ou um ralo que fosse gosto de vida. E antes que me perguntes coisa qualquer que não quero responder compro teu silêncio com a minha futilidade criativa desenfreada:
- Sabias que levas mais de hora pra ir dali até ali como formiga? Ou que em Portugal peixes moram é em piscinas e homens nadam é em aquários? Ou que nem o Sol e nem a Lua estão onde parecem estar? Já se foram mui dantes de sumirem. Como as pessoas. Dessas que vão antes de ir. D'aquele olhar de não mais estar; tão bem conheço. E nem o amor é bem isso que pensas ser! E nem o é o que penso eu! Que eu já me fui antes mesmo de saberes, mesmo caminhando ainda por teu céu. E mesmo brincando nas mãos as tuas estrelas. Menina eu já me fui!
E sabe eu sou mesmo um insensível, e nem adianta sofrer. Pois se assim for, faça-o sozinha. Eu bem disse que eu não nasci pra me apaixonar. Tudo que eu vejo é pedra. Então não me faças crer esquilos, donde serão, no máximo, pedras de subir em árvores. Eu fiz um mundo onde tudo pode. Nele, poderia eu te amar pra sempre. Mas fiz longo risco no caderno, e escrevi com breve mudança no descanso de nossos pronomes.
"Nele eu poderia amar-te pra sempre!"
E o "eu" e o "te" perceberam.
Uma pedra enorme que os separava.